O uso da imaginação na resolução de problemas é parte fundamental em qualquer empreendimento humano. Por isso, entender o que já foi contado, pensado ou imaginado sobre um assunto acaba ajudando a enxergar pontos de vista e abordagens que nem sempre parecem tão claros à primeira vista. Neste artigo, iremos explorar a representação da IA na ficção científica e o imaginário por trás disso.

 A primeiras “IAs” na história

 A ideia de um objeto que possa reproduzir capacidades humanas, como movimento, pensamento e fala, remonta desde a antiguidade. Na mitologia grega, já se contavam histórias de gigantes feitos de bronze, como Talos, que poderia defender uma cidade inteira. Outras culturas também desenvolveram seus próprios contos de seres inanimados que ganhavam inteligência, por exemplo os Golems de barro ou os homunculus dos alquimistas. Estes últimos seres habitavam frascos de laboratório e aspiravam avidamente possuir um corpo humano.

Entretanto, o entendimento que temos hoje do que seria uma IA mudou bastante. Afinal, deixou de ser fruto de histórias e imaginação de escritores para se tornar um campo de pesquisa acadêmico bastante promissor e um mercado que gira bilhões de dólares todos os anos.

Talvez, uma das primeiras idealizações de máquinas com pensamento próprio esteja presente no livro Erewhon, de Samuel Butler, publicado em 1872. Neste livro, que é mais uma sátira da sociedade vitoriana do que um livro de ficção científica propriamente dito, o autor descreve uma sociedade semi-distópica, onde, inspirado pela revolução industrial e as ideias de Charles Darwin sobre a teoria da evolução, existem máquinas que desenvolveram consciência por seleção natural. Apesar de absurda à primeira vista, é daquelas ideias que nos fazem cogitar se não estaríamos caminhando pra isso, selecionando naturalmente os melhores hardwares, códigos e aplicações dentre tantas que aparecem e desaparecem de repositórios como o GitHub todos os dias.

Por definição, inteligência artificial é uma inteligência demonstrada por máquinas, em contraste com aquela proveniente de humanos e outros animais (Poole, Mackworth, Goebel, 1998). Dentre os diversos cenários imaginados por autores de ficção, onde uma IA possa estar presente, quase sempre podemos classificá-los como: distópicos, neutros ou utópicos.

IA na Ficção Científica e na Cultura Pop

Em cenários distópicos, alguns temas são comuns na literatura e na cultura pop como um todo. Dentre eles, talvez o mais conhecido seja o que o escritor Isaac Asimov (uma das principais referências da ficção científica neste tema) chama de Complexo de Frankenstein, em referência a obra da autora Mary Shelley, na qual a criação se vira contra o criador. Há quem considere que o próprio monstro humanoide descrito em Frankenstein, 1818, possa ser considerado um dos primeiros exemplos de inteligência artificial na literatura.

Nos livros de Isaac Asimov, por exemplo “Eu, Robô” (1950) e o “Homem Bicentenário” (1976), as inteligências artificiais emergentes dos cérebros positrônicos das máquinas são descritas como capazes de pensar, agir e sentir da maneira virtualmente idêntica à dos humanos. A exceção se dá por conta das Leis da Robótica (outra convenção cunhada por Asimov), que são imbuídas nos circuitos destas máquinas de modo a não poderem violá-las.

  • 1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  • 2ª Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que entrem em conflito com a Primeira Lei.
  • 3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.
  •  “Lei Zero”: um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal.

Para seres conscientes, estas Leis inibem certos comportamentos dos robôs nas obras de Asimov. Entretanto, o mais interessante é como o autor sugere situações que colocam essas leis em xeque umas com as outras, o que sugere dilemas éticos interessantíssimos.

HAL 9000: uma das IAs mais famosas da cinema

Talvez a IA mais famosa da literatura e da cultura pop seja o computador de bordo, HAL 9000, da nave Discovery, de 2001: Uma Odisseia no Espaço, filme dirigido por Stanley Kubrick, escrito em conjunto com Arthur C. Clarke. Dentre as várias aptidões de HAL, estão a capacidade de se comunicar usando linguagem natural, reconhecimento facial, leitura labial, interpretação de emoções, apreciação de arte, capacidade de pilotar uma espaçonave e de, até mesmo, jogar xadrez. 

HAL 9000

A maioria das capacidades demonstradas por HAL ainda estão longe de serem encontradas em uma IA com aplicação no mundo real. Contudo, é seguro dizer que HAL 9000 ocupou o imaginário da maioria dos cientistas e aficionados que se debruçaram sobre o tema a partir da segunda metade do século XX. Vale ainda ressaltar que dentre as faculdades de HAL, estava a de prever falhas em sensores e equipamentos (o que desencadeia acontecimentos cruciais para a narrativa de 2001: Uma odisseia no espaço). Esse feito coincidentemente é aplicado amplamente na indústria, inclusive aqui mesmo na Aquarela, com o uso de IA’s (ainda) bem menos aptas que HAL.

Outras obras

Todavia, enquanto conhecemos HAL 9000 como a representação de uma IA que deu errado devido ao seu instinto assassino, temos em outras mídias figuras das mais carismáticas, como R2D2, da saga Star Wars, e Wall-E. Este último nos foi apresentado no filme homônimo de 2008. O robozinho possui uma diretiva simples: coletar, compactar e empilhar toneladas de lixo deixada por humanos na Terra. Nem por isso sua IA é menos capaz que outros predecessores na cultura pop. Além do carisma natural de Wall-E, no filme conhecemos outros robôs com IA igual ou muito próxima a dele, como a EVA e AUTO (este último claramente inspirado em HAL 9000).

Algo que chama bastante atenção no filme é a naturalidade que a humanidade encara a inteligência dos robôs e tarefas do cotidiano. Ordens simples em linguagem natural são comuns, uma vez que os autômatos são representados com certa independência, feito que as melhores assistentes virtuais ainda estão longe de conseguir. Quem nunca teve de repetir um comando para a Alexa ou ainda para assistente do Google que processou algo completamente errado, não é mesmo?

Mais aplicações da IA na ficção científica

Outra ideia bastante trabalhada na ficção científica é a de transferir a mente humana para computadores. Assim, cria-se uma IA com a capacidade de replicar a mente humana original em um ambiente artificial controlado. Quase sempre, ignoram-se as dificuldades desse processo ou não as tratam devidamente em obras de ficção. É preciso dizer que tal procedimento ainda não se encontra nem perto de sua realização em qualquer futuro próximo. Entretanto, abre-se o seguinte debate ético: uma consciência humana num corpo totalmente sintético é humano ou mesmo um ser? Este mesmo dilema se aplica para os casos que tratamos anteriormente, que direitos poderiam ou deveriam ter uma IA consciente de si mesma? 

De toda forma, podemos salientar que nas últimas décadas tivemos inúmeros exemplos de IA descritas na literatura, mesmo que algumas personagens sejam apenas releituras de exemplos anteriores.  Ainda assim, são inúmeros exemplos, e muitos levantam questões morais e éticas que geram debates. Por exemplo, a inteligência coletiva das máquinas em Matrix (1999); os sentimentos e o desejo de ser humano, com todas as suas implicações, presente no filme AI – Inteligência Artificial (2001), de Steven Spielberg;  a singularidade que atingem as IA’s em ELA (2013); o sensor de humor e de dispensabilidade de TARS e CASE, em Interestelar (2014); outrossim a sociedade pós-IA de Duna (1965), na qual a mera recriação de qualquer IA, depois de inúmeras guerras e rebeliões das máquinas, resulta em pena de morte. 

Considerações finais – IA na ficção científica

As combinações de IF’s e ELSE’s que são executadas nos processadores de silício ainda estão bem longe das IA’s dos cérebros positrônicos ou dos processadores do poderoso HAL9000, mas já podemos chamá-las de IAs. Pois, mesmo sendo em sua maioria construídas para um propósito único, como criar músicas, falar ou mesmo reproduzir arte, são capazes de analisar, processar, prever e gerar informações dos mais variados tipos.

A inteligência artificial que vem sendo desenvolvida contemporaneamente se assemelha em alguns pontos, mas difere em outros daquela pensada e imaginada por diversos autores de ficção. Seria preciso, por exemplo, ao se criar a primeira IA para uso genérico, que ela estivesse imbuída em seu cerne das Três Leis da Robótica de Asimov a fim de evitar um cenário catastrófico para a humanidade? Ou será que os sistemas automatizados que temos hoje em dia irão tomar rumos benignos, bem diferentes dos futuros distópicos descritos nas obras de ficção? Uma coisa é certa, já é ampla a utilização de sistemas contendo IA para diversos propósitos, agregando, assim, valor da academia ao varejo, passando pela indústria, com aplicações reais e práticas e não são mais apenas ficção.

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Links e referências:

Poole, David; Mackworth, Alan; Goebel, Randy (1998). Computational Intelligence: A Logical Approach. Oxford University Press. p. 1. ISBN 0-19-510270-3.

https://archive.org/details/computationalint00pool/page/1

https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_artificial_intelligence

https://www.livescience.com/49007-history-of-artificial-intelligence.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Artificial_intelligence#Fictions_and_early_concepts

https://en.wikipedia.org/wiki/HAL_9000

https://en.wikipedia.org/wiki/Artificial_intelligence_in_fiction

https://pt.wikipedia.org/wiki/Leis_da_Rob%C3%B3tica

https://villains.fandom.com/wiki/AUTO

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